Maturidade e ilusão

A maturidade não é “encarar a realidade como ela é”.

Maturidade é entender que a realidade, sozinha, não move ninguém. O que move ação, decisão e desempenho é o significado que atribuímos a ela. Fatos são neutros. A interpretação nunca é.

Existe um mito confortável de que há uma realidade objetiva, sólida, quase moral, que basta ser aceita para que as coisas se resolvam. Como se os fatos viessem com instruções embutidas sobre como sentir, reagir e agir. Isso não acontece. Na verdade, o mundo entrega eventos brutos. Quem fornece sentido somos nós.

Por isso, é importante compreender que a realidade é ilusão. Aquilo que chamamos de “realidade” é sempre mediado por uma lente. Não respondemos ao que acontece, mas à história que contamos sobre o que acontece. Performance não responde à realidade objetiva. Responde à tensão percebida.

Michael Jordan é um exemplo dessa consciência sobre a realidade, conforme destacado no livro Unreasonable Hospitality.

Se alguém o provocava, ótimo. Aquilo virava combustível. Se ninguém o desafiava, ele resolvia o problema sozinho. Inventava rivalidades, interpretava esbarrões acidentais como ofensas pessoais, criava conflitos que só existiam na própria cabeça. Não porque fosse ingênuo ou delirante, mas porque sabia que aquilo funcionava. A rivalidade não precisava ser real para produzir efeito real.

Jordan não negava os fatos. Ele reprogramava o significado. Criava uma ilusão funcional, entrava no estado mental certo, performava no mais alto nível e depois desligava.

Tudo funciona em camadas. Primeiro vem o fato: o que aconteceu, sem adjetivos. Depois, a narrativa: a história que você escolhe contar sobre aquilo. Essa narrativa ativa uma emoção específica, e a emoção gera comportamento. O resultado nunca nasce do fato em si, mas da cadeia que vem depois dele.

O erro comum é tratar a narrativa como verdade absoluta. O salto de maturidade é entendê-la como ferramenta.

O problema começa quando essa ferramenta vira identidade. Quando a ilusão não pode mais ser desligada. Quando a pessoa passa a precisar de inimigos, tensão constante ou conflito permanente para funcionar. Nesse ponto, ela deixa de operar a ilusão e passa a servi-la. A narrativa deixa de ser alavanca e vira prisão.

Jordan ligava o modo guerra para competir. Não para existir.

Por isso, maturidade não tem nada a ver com “ver a realidade como ela é”, como se isso fosse virtude em si. Maturidade é outra coisa: é escolher conscientemente qual interpretação te faz agir melhor e saber desligá-la depois.

A pergunta que importa nunca foi se a narrativa é verdadeira. A pergunta relevante é se ela é útil, se melhora sua ação agora e se pode ser descartada quando não serve mais. Quem entende isso deixa de ser refém do mundo e passa a ser operador da própria percepção.

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