A curadoria na era digital

Na minha época, era muito comum ir à biblioteca física do tribunal para consultar os livros e selecionar cuidadosamente a doutrina e os precedentes mais relevantes. Hoje, com dois cliques, uma ferramenta de IA te entrega 50 decisões. Mas serão todas realmente pertinentes? Estarão corretas? Como saber?

A curadoria é justamente este “filtro” de análise e apuração do que foi coletado. É o nosso olhar crítico sobre as repostas às nossas perguntas. E a curadoria, por ter a capacidade de moldar a compreensão da verdade, merece nossa total atenção.

O Poder da Curadoria

Durante uma entrevista sobre seu novo livro “Nexus”, Yuval Noah Harari trouxe um exemplo histórico que ilustra perfeitamente a importância da curadoria: a formação da Bíblia cristã. No século IV, líderes religiosos se reuniram para decidir quais textos entrariam ou não no cânone sagrado. Não eram eles os autores dos textos, mas suas escolhas moldaram a visão de bilhões de pessoas pelos próximos 2.000 anos.

Este é o verdadeiro poder da curadoria – a capacidade de selecionar, organizar e dar sentido à informação. E hoje, com o tsunami de dados que recebemos diariamente, essa habilidade se tornou ainda mais crítica.

Por Que a Curadoria Importa para o Direito?

Como advogados, precisamos entender dois aspectos fundamentais da curadoria na era da IA:

  1. Somos curadores das respostas da IA: Quando usamos ferramentas de IA generativa como o ChatGPT para pesquisa jurídica ou elaboração de peças, precisamos verificar e validar cada resposta. A IA pode (e vai) cometer erros, criar “alucinações” ou apresentar vieses. Nossa função é fazer a curadoria dessas informações.
  2. Somos impactados pela curadoria algorítmica: Os algoritmos das redes sociais e plataformas digitais fazem escolhas por nós o tempo todo, decidindo o que vemos ou não vemos.
O Perigo da Ausência de Curadoria

“Se você der boas informações para pessoas boas, elas tomarão boas decisões. Se der más informações para pessoas boas, elas tomarão más decisões”, resume Harari. Esta é uma lição plenamente aplicável para o mundo jurídico.

Imagine o profissional do Direito que, sem fazer a devida curadoria, usa uma decisão judicial gerada por IA que na verdade não existe. Ou um escritório que baseia sua estratégia processual em precedentes desatualizados porque confiou cegamente nos resultados de uma pesquisa automatizada.

Já temos casos de multas aplicadas a advogados pelo uso de ferramentas de inteligência artificial sem a devida curadoria de suas respostas.

Como Ser um Bom Curador Digital?
  1. Verifique as fontes: Sempre confirme as informações em fontes oficiais
  2. Compare diferentes resultados: Não confie em uma única resposta da IA
  3. Mantenha o pensamento crítico: Questione, analise, reflita
  4. Desenvolva critérios claros: Estabeleça parâmetros para avaliar a qualidade da informação
  5. Documente suas verificações: Mantenha um registro de como validou as informações
Conclusão

Em um mundo em que algoritmos fazem curadoria automatizada e IAs geram conteúdo em massa, precisamos mais do que nunca desenvolver nossas habilidades como curadores humanos. É uma ironia que, quanto mais avançada a tecnologia se torna, mais precisamos dessa competência tão antiga e fundamentalmente humana.


Nota: Este texto foi escrito por um advogado especialista em IA. Como parte de nossa própria prática de curadoria, recomendamos que você verifique as informações aqui apresentadas e desenvolva suas próprias conclusões.

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